Viver da fé

Hebert Viana critica governo Temer durante show em festival custeado pela Lei Rouanet

31 de Julho de 2016

No sábado, dia 30 de julho, esta que vos escreve esteve no famoso Festival de Inverno de Itapecerica. Para quem não conhece, o evento atrai milhares de turistas oriundos de várias cidades do Centro Oeste Mineiro, até mesmo de lugares mais distantes. Neste ano, não foi diferente. Antes mesmo de o show começar, havia tanta gente na festa que eu me perguntava qual físico foi estúpido o suficiente para acreditar na teoria de que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. Era só ver a multidão que se acotovelava na Praça da Matriz para concluir que isso não passa de balela. Mas estou divagando. Quero focar no que ocorreu durante a apresentação. Pois bem. A banda da noite era nada mais nada menos que Paralamas do Sucesso. Um grupo de imenso sucesso no país e que já emplacou diversos hits em novelas da Globo. Até aí, ok. Confesso que não sou exatamente uma fã, mas me interessei em ver o Hebert Viana cantando ao vivo.

Qual não foi minha surpresa quando no meio do show, assim que terminou uma música, ele me solta essa: “Michel Temer não recebeu voto de ninguém.” Era a introdução para cantar a antiga, porem atual “Que país é esse?” Alguns presentes reagiram efusivamente às palavras do músico. A maioria ignorou. O Festival de Inverno de Itapecerica é totalmente custeado com recursos provenientes da Lei Rouanet, aquela que autoriza captação de dinheiro de impostos destinados à Cultura para projetos que estimulem ou promovam atividades culturais. Portanto, todas as bandas que tocaram no evento, como Jota Quest e Paralamas, foram pagos com o meu, o seu, o nosso vil metal. Vamos suspender a realidade por um momento e fingir que, em um país no qual milhões de pessoas ainda não tem acesso a saneamento básico e que importa escravos cubanos disfarçados de médicos, dar dinheiro público a artistas já consagrados é belo e moral. Viana foi contratado para cantar para todos os que estavam naquele ambiente. Certamente, cada um dos que curtiam o show tinha sua visão política sobre a situação do país. Como a banda foi paga com dinheiro de gente que apoia e que tem repulsa pelo Partido dos Trabalhadores (PT), o mínimo que se poderia esperar dele era isenção. O que ele fez não foi ilegal, afinal a liberdade de expressão é um direito de todos, mas foi impróprio, imoral e antiético. Demonstra uma total falta de respeito com seus fãs e com a coisa pública. Ter uma visão de mundo diferente não é pecado, mas querer promover ou criticar um governo que libera dinheiro que vai parar direta ou indiretamente na conta da pessoa que está criticando ou elogiando sugere um comportamento no mínimo questionável.

O mais asqueroso de tudo isso é ele querer perpetuar uma mentira. Quem votou na Dilma, votou no Temer. Não existe presidente sem vice. Ela foi afastada pelo Congresso Nacional por causa dos crimes fiscais que cometeu. Nesse caso, o vice assume. Ah, mas sempre tem um petista ou uma linha auxiliar para surgir com a carta do “tudo foi um golpe arquitetado pelo Cunha”. A gente tenta esclarecer: “O Cunha não pediu para a Dilma fraudar as contas públicas. O mérito foi todo dela, caro petista”. No entanto, não adianta argumentar. Por ingenuidade, ou má fé, os dilmistas ainda insistem na mesma ladainha, criando um espetáculo argumentativo esquizofrênico. Ao negar a realidade, eles apenas lutam para dar fôlego a um governo que nasceu condenado pela ideologia (que não deu certo em nenhum lugar do mundo), pela incompetência ou simplesmente pela inviabilidade de sua visão econômica. Mas para que se prender a uma coisa tão burguesa como os fatos? O que vale é acreditar em uma proposta, mesmo que não se tenha um só bom motivo para isso. Nunca aqueles versos de Alagados, canção dos Paralamas, fez tanto sentido: “a arte de viver da fé, só não se sabe fé em que.”

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